A vida é mesmo assim

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ela queria ficar, apesar de saber que provavelmente seria bem mais fácil ir embora. Afinal, ela só queria um amor de paz, daqueles que dão abraço sem pedir. Porque esse é o único amor que vale a pena, quem gosta de tempestade no coração é adolescente, adulto gosta mesmo é de panela antiaderente e calmaria dentro do peito.
Ela sabia que ia sentir falta de tê-lo nos seus pensamentos diários, dos planos e das lembranças dos breves dias que pareceram anos e que vieram enfeitados de fogos de artifício e levaram embora o sono. 
"Achei que era desta vez", pensava. E no fundo, ela ainda acha. Mas o orgulho - ah, sempre ele, não fosse ela satanáries - a cala, sobrando os dedos irrequietos passando por fotos e frases onde ela não está nem participa. E dói. Dói muito.



Tem horas em que os seus próprios tropeços lhe trazem mais angústia do que as mentes perturbadas alheias. Ela tentou, de verdade. Mas mais uma vez, não foi suficiente. "A vida é mesmo assim", dizem. E estão certos, mas a vida seria bem mais fácil se as pessoas tivessem um pouco mais de coragem.
Rapaz, você fode com o psicológico dela, sabia? E, mesmo assim, ela sente falta. E só queria que você lhe dissesse que vai dar tudo certo.
Mas como dizem, a vida é mesmo assim.

Sem avisar

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A multidão segue apressada, cheia de seus afazeres que não a deixam pensar ou enxergar à sua volta. O carro buzina - motorista impaciente que não consegue esperar cinco segundos para seguir o seu caminho. Mais ninguém sabe esperar.
O pipoqueiro fica à sombra do toldo do seu carrinho. Tem de 3, 4 e 5 reais. Ninguém para para comprar, e ele começa a repensar o negócio que não dá dinheiro, e ele não tem a mínima ideia do que fazer para reverter. 
Tantos rostos anônimos, tantas histórias de vida por contar. 
Ela andava olhando para baixo, segurando um copo de café daquela cafeteria hipster que ela tanto gosta. O seu nome estava escrito errado, para variar. Já se acostumara com isso. No fone de ouvido, aquele rock antigo que ela não parava de escutar. O analfabetismo musical era gritante, mas ela não se importava. De repente, se abrir para coisas novas não era assim tão interessante. Que fique o Jon.
"Preciso de um cigarro", pensou. Como ela gostava de um cigarro depois do café. Também pensou que precisava parar de fumar. Mas naquele momento ela precisava de fumar. Estava passando, como dizer por aí, pelo seu inferno astral. Estava à beira de mais um aniversário e mais uma vez estava tudo na mesma. 365 dias e nada havia mudado. Oh well, vida que segue. 
"Acho que deveria fazer alguma arte marcial". É que ela precisa de alguma coisa que a faça sentir diferente, um pouco fora da sua pele. No fundo, no fundo, ela precisa de se sentir um pouco longe, para esquecer, como se visse sua vida pela perspectiva de outra pessoa.
"Porra, preciso parar de pensar tanto nas coisas". Ela pensava demais, é verdade. Pensava de uma forma tão intensa que até doía o peito. Lá está, é um dos muitos defeitos dela: ela praticamente exigia que todos pensassem e agissem como ela pensa e age. Mal de ariano, dizem por aí. O tal "Ah, deixa que eu faço aqui, vai". Que merda de mania chata da porra. Deixa os caras, mano. Ela até tenta, e às vezes até consegue, mas depois lá vem a ideia de que só o que ela acha está certo. Talvez um dia ela consiga mudar, ser mais flexível. Ou não.




Para o seu trajeto apressado para fazer carinho a um cachorro abandonado. Abandonado, não vadio, que assim é ofensivo. Dá um pedaço do bolo que tem na bolsa. "Tchau, catioro!", despede-se, sabendo que é falta de educação não cumprimentar um cão que chega até você abanando o rabo. 
"Por que as pessoas não são mais como os cachorros, que demonstram o amor de uma forma tão natural?". É porque com os humanos, o buraco é mais embaixo. Um cão é capaz de fazer festa para alguém que o abandonou dois dias atrás. O humano... ah! o humano, esse é mais difícil de conquistar. "Acho que as pessoas são diferentes umas das outras, no fim das contas". Mas que seria bom um carinho e um abraço sem aviso prévio, ah, isso seria. 

Amar é para os fortes

segunda-feira, 20 de março de 2017

Numa época de relacionamentos vapt-vupt, de dar like esperando o match, de muitos "oi, sumida" nas redes sociais e poucos "vamos tomar um café agora?", demonstrar interesse pelo outro é cada vez mais raro. Hoje, ganha quem demora mais para mandar uma mensagem, o prêmio vai para quem é mais desapegado. Afinal, o que está acontecendo com o mundo que parece não querer mais amor na sua vida?

Há quem até se doe, mas pela metade. E não, não é aquela metade da laranja que o Fábio Júnior já cantava. Até porque ninguém deve procurar metade nenhuma, somos inteiros, ninguém deve vir para completar, mas sim para somar. Mas não é dessa metade que estou falando. As pessoas hoje, quando se interessam por alguém, vão já com o pé atrás, já estabelecem o limite até onde querem ir, independentemente de saber se o encontro terá aquele "fogo-de-artifício" típico de quem se gosta no primeiro olhar ou não.



Ninguém é obrigado a demonstrar interesse quando não se tem, ou a gostar do outro. Tudo bem, é normal. O que não deveria acontecer é a auto-sabotagem, o gostar e não querer nada além de uma noite quente de prazer e tchau. Acabou as mensagens de "bom dia", acabou a ligação no horário de almoço, acabou o interesse. Assim, simples, beijo e tchau. Venha o próximo da lista que não há tempo a perder. 

Amar, definitivamente, é para os fortes. E é por isso que devemos agradecer por cada toco, cada interesse que se esvai na manhã seguinte, cada "Desculpa, mas não vai rolar". Quem não está disposto a brincar no jogo do amor não deve descer para o play. Passa a vez para o coleguinha e fica no celular procurando o próximo no cardápio humano que você ganha mais. 

Quem procura amor de verdade não deve se preocupar com os "nãos" mascarados de sumiços que falam mais do que palavras. Deve é agradecer. Porque a pele se auto-regenera no amor próprio e prepara o coração do valente na busca da felicidade. 

Um dia após o outro

quinta-feira, 16 de março de 2017

Acordo. Antes do que gostaria, mas sem ajuda do despertador. Desde que ele nasceu, o meu corpo se acostumou a acordar sozinho. Olho para o lado, ele ainda dorme. É sempre bom acordar e vê-lo ali do meu lado. Nem reclamo quando ele me chama 5h da manhã, para pegá-lo na cama dele e levá-lo para a minha. "Mãe! Mamãe!". Dormimos juntos desde que ele tem seis meses. A desculpa primeiro era a amamentação. Mas foi ficando, ficando. Hoje ele só vai para lá de madrugada. Eu nem ligo - e adoro, devo confessar. Afinal, não vai ser um bebê para sempre.
Já estou cansada logo de manhã. No instagram as famosas já correram, já malharam com os Mahamudra no Ibirapuera, já fizeram dez refeições. Eu estou me esforçando para viver ainda. Puta canseira ser mãe. Essa é a verdade. Cansa, cansa pra caralho (desculpa mãe!). Mas somos ensinadas a não reclamar. "Não quis ser mãe? Agora aguenta". Meu filho, aguento com todo o prazer, mas que alguém poderia ter me avisado que nunca mais dormiria do mesmo jeito e que teria de aprender a viver para sempre cansada, com sentimento de culpa, com medo de falhar a qualquer atitude de birra ou má-criação. Claro que não desistiria de ser mãe, mas pelo menos estaria mais preparada.



Na maioria das vezes, eu não me acho uma boa mãe. Fico mais tempo no celular do que deveria. Talvez poderia insistir mais para ele comer, depois de eu ter passado uma hora cozinhando e ele dá apenas uma garfada e fala que não quer mais. Creio que boas mães teriam medo que o filho morresse de fome e criariam mil e uma estratégias para ele comer. Mas eu não. Eu insisto duas vezes, e se ainda assim não comer, eu mesma como. Já estou acostumada a comer restos do prato dele. Também não me acho uma boa mãe quando fico aliviada quando ele vai para o pai. "Meu Deus, sou horrível, fico contando as horas para o meu filho ir para a casa do pai. Que mãe sou eu?". 
No outro dia, dei pela primeira vez um tapa na mão dele, depois dele ter feito uma má-criação daquelas (nem lembro mais o quê). Ele chora, chora muito. E eu, claro, me sinto uma merda. E depois ele olha para mim e fala: "Mamãe, cupulpa". Ah, meus amigos, aí não há coração que aguente. Vontade de sair na rua e pedir para o primeiro estranho: "Moço, por favor, me dá um tapa na cara com toda a sua força, por favor?". 

Enfim, todas nós temos pelo menos um momento do nosso dia em que nos sentimos apenas “a pior mãe do mundo”. Em que precisamos daquele abraço, para nos dizer que vai ficar tudo bem. E sabem que mais? Geralmente tudo fica melhor após uma "boa" (coloco entre aspas porque a partir do momento em que você é mãe, dorme com um olho aberto e outro fechado) noite de sono. Amanhã começa tudo outra vez. É só torcer para, desta vez, ele pelo menos comer metade do que está no prato. 

Um café e um abraço

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ela não era uma pessoa das manhãs. A rotina dos últimos anos a levou a ter aversão de acordar cedo, ao ponto de lhe estragar o humor do resto do dia. Então, ao longo do tempo, ela achou em uma xícara de café (ou duas, três, quatro...) a solução para a ressaca moral, o alívio que precisa para encarar o dia. "Eu não funciono sem café", dizia. Ah, e como sabiam disso quem com ela convivia! Ela até dá aquele "bom dia" tímido de manhã, mas viver, viver de verdade, só depois do café preto. E nem adianta vir com a caneca de café com leite. É da cafeína pura que ela precisa. Ou ela não se responsabiliza pelos seus atos. Sério.

"Café é vida", ela costuma dizer. Talvez seja um pouco demais, mas ela via naquela bebida quente e forte (tem de estar tipo tinta, por favor...) uma forma de se autobrindar, uma chance de ter um dia mais disposto. Bem, dizem que o dinheiro não compra felicidade, mas compra pó de café, que é basicamente a mesma coisa.




Dividir com alguém o momento de beber café é que nem dividir senha do Netflix: não são necessárias palavras para demonstrar a força desse afeto. Ali está ela, disposta a partilhar aquele instante tão imprescindível na vida dela: sorte de quem ela escolhe para fazer isso.

Um café tem a força de um abraço: ele, por si só, demonstra que não há nada como um dia após o outro com uma noite pelo meio. Porque café que é café não tira sono, ele traz cura e inspiração. Ah!, se pudéssemos misturar o doce aroma de um café acabado de passar com a ternura de um abraço! Tantas lágrimas seriam poupadas, tantos sonhos ganhariam força para serem realizados, tantos problemas seriam desatados. 

Na falta do abraço certo, o café faz o resto.

Eu vejo você

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Eu vejo você pelos caminhos que quero te levar, pelas ruas que você não conhece e pelos sons que quero te apresentar. Vejo você em uma barraca de pastel e caldo de cana, onde nos imagino em um domingo ensolarado. Quase consigo ver seu olhar vidrado no palco de um teatro qualquer em São Paulo, onde, de mãos dadas para nunca mais largar, assistiremos a uma peça que te fará sorrir. Vejo sua silhueta em um café hipster da Paulista, enquanto discutimos a real causa do protesto que para a cidade. Vejo você com a chave da minha casa, da minha vida e do meu coração, onde você já é rei e senhor - e não faz nem ideia. Vejo você em uma tarde de calor em um parque sem árvores, com meu filho nos seus ombros te pedindo um picolé. Ali está você também, nos desenhos da minha pele, que quando olho reparo que, em cada uma, já está tatuado o que entrego nas suas mãos. Vejo seu olhar apreensivo quando parece que não vou parar no sinal vermelho, o tom da sua voz quando me alerta que tem um sinal de "Pare" ali à frente e quando você parece não acreditar que comigo no volante, tem de ter emoção e música sertaneja.



Vejo você alegre sambando em um bloco de rua enquanto eu só torço para não derrubarem a cerveja na minha roupa, que comprei especialmente para essa ocasião. Vejo você em meio a pessoas que acabou de conhecer mas que já te adoram - tem como não adorar? Vejo você numa tarde preguiçosa de domingo, no meu sofá, e transformando seu corpo no encaixe perfeito do meu, como eu já sei que é mesmo sem ter testado.
Vejo você esperando eu voltar para os teus braços, agora para ficar. Vejo você pelas calçadas lisboetas onde você vai insistir em me levar, como se eu nunca tivesse pisado naquelas terras. E vais fazer questão de me explicar a origem da arte naquele prédio, no melhor estilo de guia turístico que só você tem. Vejo você de cerveja na mão, me levando aos melhores arraiais dos Santos Populares. Vejo você na voz de uma torcida em um estádio lotado em um jogo que não vale nada de um time que não ganha nada há 15 anos. Vejo você em um palco de improviso numa sala escondida na velha cidade, onde me apaixono cada vez mais e me pergunto por que Deus me deu tanta sorte de poder reescrever tudo do zero, com uma tinta que promete não sair facilmente, e não mais a lápis.
Vejo você em cada espelho que cruzo, porque mais nada me vai tirar o brilho que só você me soube dar. 

Oi, saudade, como vai?

sábado, 21 de janeiro de 2017

Oi, tudo bem? Quanto tempo, né? Estava sumida. Logo você, que volta e meia dava o ar da graça, fazia um tempo que não aparecia. Sim, sei que eu pedi para você sumir, que eu queria viver o presente, com meu coração peludo. Mas é que eu esqueci de como você é astuta, que com você não dá para vacilar. Que boba fui, logo eu, que sabia que assim que eu fraquejasse, você voltaria a abalar as minhas estruturas e a bagunçar a minha vida. Pois é, fraquejei e deixei que você voltasse. E agora você não arreda o pé. Porra, me ferrei. De novo.
O problema é que com você tudo fica mais complicado. E mais fácil ao mesmo tempo. Você traz a felicidade de sentir aquele aperto no peito, relembrando as coisas boas que vêm com você, os abraços, os cheiros e as covinhas do sorriso. E é tão bom saber que, se eu fechar os olhos e me concentrar bem, volto àquele momento, em que um amor embalado pelos cânticos de uma torcida qualquer trazia lágrimas aos olhos e fazia a inevitável pergunta "Merda, e agora?" ecoar dentro do meu ser. Mas você traz também aquela aperto foda no coração, da vontade de viver o que não se teve tempo para viver, os passeios de mão dada em um empreendimento qualquer que transforma área de fábricas abandonadas em ponto turístico, as tardes embaixo do cobertor assistindo um filme que a gente nem vai estar prestando atenção porque o que interessa são os nossos corpos ali juntos, como nunca tivemos oportunidade. 
Eu não te chamei, mas você veio. E não veio sozinha. Foi lá atrás, há 11, 12 anos, e me fez ter vontade de transformar aquele passado inacabado em presente e futuro. Assim, sem aviso prévio, sem me dar uma dica, sem aviso prévio, sem dó. Porra, você só pode ser louca.




Mas não vai embora. Fica. Fica mais um pouco. Nem que seja para eu me acabar naquelas músicas que todos dizem que odeiam mas que trazem tantas verdades, que mostram que nem tudo o que ficou para trás tem de ficar lá e que talvez seja a hora de, desta vez, tentar acertar. 
Mesmo que você tenha deixado de lado o salto alto e a sutileza  para chegar de coturno chutando a minha cara, eu te digo: seja bem-vinda. Vê se me orienta direitinho desta vez e, por favor, não me deixes estragar tudo de novo.

 
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