Descabelada e com o rímel borrado

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Ela gosta de se arrumar. Dá uma atenção especial ao seu cabelo, que ela prefere liso, mesmo defendendo que a mulher tem de ser o mais natural possível. Gosta de se vestir bem, especialmente em ocasiões especiais. Dificilmente sai da gama preto/azul/branco/cinza e derivados. Não liga para marcas de perfume, mas se sai sem estar perfumada, é como se estivesse nua. Suas unhas estão sempre feitas, usa corretivo até para ir à padaria. 
Mas ela é pé no chão. Não é vaidosa nem valoriza demais a beleza. Aliás, sempre achou que pessoas bonitas demais dão muito trabalho. É nas coisas simples que ela é conquistada. Na cerveja bebida no quintal e no pão na chapa da padoca. No miojo para o almoço quando dá preguiça de cozinhar. Na tarde assistindo o jogo de futebol. 

E, principalmente, no domingo amanhecido. 

Aquele mesmo, pós-balada, com a maquiagem derretida e a chapinha vencida. Com a camisa dele e a lata vazia no canto do quarto. Com um brinco perdido em um lugar qualquer. 

Nessa hora, é ela mesma.



Sem salto alto, sem perfume exalando, o batom saiu faz tempo, o cabelo desgrenhado e o rímel borrado. Ali, não tem disfarces, não tem macetes ou truques. Ali, é ela mesma, no seu momento mais vulnerável: quando acaba de acordar. Nem sabe direito onde está e já abre os olhos com um sorriso e tapa o rosto com as mãos, envergonhada, quando ele já a está olhando há alguns minutos. Mal ela sabia que era naquele exato momento que, aos olhos dele, ela estava mais linda do que com a roupa da moda, na balada do momento, com os cabelos perfeitamente alinhados e a boca desenhada dentro do contorno do batom vermelho. Ali, ela era só dele, e ele só dela. E isso é bom. 

A tua ausência

domingo, 23 de abril de 2017

Hoje acordei com vontade de você. Assim que abri os olhos peguei no celular e quase mandei o "bom dia!" a que já estava acostumada todas as manhãs. Mas aí lembrei que você não está mais aqui. Lembrei que não nos falamos mais. Passou só meia-dúzia de dias mas já parece que foram anos, que o mundo mudou: a Terceira Guerra começou, o São Paulo foi eliminado de novo, o frio veio e foi embora, os cabelos brancos deram a cara e as rugas se fortaleceram.
Quis te mandar uma música, aquela, sabe? A que eu chamo de nossa e que por 11 anos eu não conseguia escutar sem lembrar de você. "Espero que ele esteja bem" era o pensamento que me vinha à cabeça quando a ouvia antes e é precisamente​ esse pensamento que veio agora. E eu quis mandar uma mensagem falando que estava sentindo a sua falta e receber de volta um "eu também".
Mas não mandei. Não mandei porque independentemente do que você responder, provavelmente nada vai mudar, o seu silêncio deixa isso bem claro. E mesmo que dê vontade de começar tudo do zero, como se estivéssemos nos conhecendo agora em uma rede social qualquer, não dá para fingir. Já há muito de você em mim para agir como se fôssemos perfeitos desconhecidos. Até podemos tentar, mas como explicar para o coração que aquela marca ali dentro tem a forma de um desconhecido?
Incrível como dói muito mais a tua ausência do que a indiferença da tua presença. É, era assim, você não percebia? Pois é.

A vida é mesmo assim

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ela queria ficar, apesar de saber que provavelmente seria bem mais fácil ir embora. Afinal, ela só queria um amor de paz, daqueles que dão abraço sem pedir. Porque esse é o único amor que vale a pena, quem gosta de tempestade no coração é adolescente, adulto gosta mesmo é de panela antiaderente e calmaria dentro do peito.
Ela sabia que ia sentir falta de tê-lo nos seus pensamentos diários, dos planos e das lembranças dos breves dias que pareceram anos e que vieram enfeitados de fogos de artifício e levaram embora o sono. 
"Achei que era desta vez", pensava. E no fundo, ela ainda acha. Mas o orgulho - ah, sempre ele, não fosse ela satanáries - a cala, sobrando os dedos irrequietos passando por fotos e frases onde ela não está nem participa. E dói. Dói muito.



Tem horas em que os seus próprios tropeços lhe trazem mais angústia do que as mentes perturbadas alheias. Ela tentou, de verdade. Mas mais uma vez, não foi suficiente. "A vida é mesmo assim", dizem. E estão certos, mas a vida seria bem mais fácil se as pessoas tivessem um pouco mais de coragem.
Rapaz, você fode com o psicológico dela, sabia? E, mesmo assim, ela sente falta. E só queria que você lhe dissesse que vai dar tudo certo.
Mas como dizem, a vida é mesmo assim.

Sem avisar

segunda-feira, 3 de abril de 2017

A multidão segue apressada, cheia de seus afazeres que não a deixam pensar ou enxergar à sua volta. O carro buzina - motorista impaciente que não consegue esperar cinco segundos para seguir o seu caminho. Mais ninguém sabe esperar.
O pipoqueiro fica à sombra do toldo do seu carrinho. Tem de 3, 4 e 5 reais. Ninguém para para comprar, e ele começa a repensar o negócio que não dá dinheiro, e ele não tem a mínima ideia do que fazer para reverter. 
Tantos rostos anônimos, tantas histórias de vida por contar. 
Ela andava olhando para baixo, segurando um copo de café daquela cafeteria hipster que ela tanto gosta. O seu nome estava escrito errado, para variar. Já se acostumara com isso. No fone de ouvido, aquele rock antigo que ela não parava de escutar. O analfabetismo musical era gritante, mas ela não se importava. De repente, se abrir para coisas novas não era assim tão interessante. Que fique o Jon.
"Preciso de um cigarro", pensou. Como ela gostava de um cigarro depois do café. Também pensou que precisava parar de fumar. Mas naquele momento ela precisava de fumar. Estava passando, como dizer por aí, pelo seu inferno astral. Estava à beira de mais um aniversário e mais uma vez estava tudo na mesma. 365 dias e nada havia mudado. Oh well, vida que segue. 
"Acho que deveria fazer alguma arte marcial". É que ela precisa de alguma coisa que a faça sentir diferente, um pouco fora da sua pele. No fundo, no fundo, ela precisa de se sentir um pouco longe, para esquecer, como se visse sua vida pela perspectiva de outra pessoa.
"Porra, preciso parar de pensar tanto nas coisas". Ela pensava demais, é verdade. Pensava de uma forma tão intensa que até doía o peito. Lá está, é um dos muitos defeitos dela: ela praticamente exigia que todos pensassem e agissem como ela pensa e age. Mal de ariano, dizem por aí. O tal "Ah, deixa que eu faço aqui, vai". Que merda de mania chata da porra. Deixa os caras, mano. Ela até tenta, e às vezes até consegue, mas depois lá vem a ideia de que só o que ela acha está certo. Talvez um dia ela consiga mudar, ser mais flexível. Ou não.




Para o seu trajeto apressado para fazer carinho a um cachorro abandonado. Abandonado, não vadio, que assim é ofensivo. Dá um pedaço do bolo que tem na bolsa. "Tchau, catioro!", despede-se, sabendo que é falta de educação não cumprimentar um cão que chega até você abanando o rabo. 
"Por que as pessoas não são mais como os cachorros, que demonstram o amor de uma forma tão natural?". É porque com os humanos, o buraco é mais embaixo. Um cão é capaz de fazer festa para alguém que o abandonou dois dias atrás. O humano... ah! o humano, esse é mais difícil de conquistar. "Acho que as pessoas são diferentes umas das outras, no fim das contas". Mas que seria bom um carinho e um abraço sem aviso prévio, ah, isso seria. 

Amar é para os fortes

segunda-feira, 20 de março de 2017

Numa época de relacionamentos vapt-vupt, de dar like esperando o match, de muitos "oi, sumida" nas redes sociais e poucos "vamos tomar um café agora?", demonstrar interesse pelo outro é cada vez mais raro. Hoje, ganha quem demora mais para mandar uma mensagem, o prêmio vai para quem é mais desapegado. Afinal, o que está acontecendo com o mundo que parece não querer mais amor na sua vida?

Há quem até se doe, mas pela metade. E não, não é aquela metade da laranja que o Fábio Júnior já cantava. Até porque ninguém deve procurar metade nenhuma, somos inteiros, ninguém deve vir para completar, mas sim para somar. Mas não é dessa metade que estou falando. As pessoas hoje, quando se interessam por alguém, vão já com o pé atrás, já estabelecem o limite até onde querem ir, independentemente de saber se o encontro terá aquele "fogo-de-artifício" típico de quem se gosta no primeiro olhar ou não.



Ninguém é obrigado a demonstrar interesse quando não se tem, ou a gostar do outro. Tudo bem, é normal. O que não deveria acontecer é a auto-sabotagem, o gostar e não querer nada além de uma noite quente de prazer e tchau. Acabou as mensagens de "bom dia", acabou a ligação no horário de almoço, acabou o interesse. Assim, simples, beijo e tchau. Venha o próximo da lista que não há tempo a perder. 

Amar, definitivamente, é para os fortes. E é por isso que devemos agradecer por cada toco, cada interesse que se esvai na manhã seguinte, cada "Desculpa, mas não vai rolar". Quem não está disposto a brincar no jogo do amor não deve descer para o play. Passa a vez para o coleguinha e fica no celular procurando o próximo no cardápio humano que você ganha mais. 

Quem procura amor de verdade não deve se preocupar com os "nãos" mascarados de sumiços que falam mais do que palavras. Deve é agradecer. Porque a pele se auto-regenera no amor próprio e prepara o coração do valente na busca da felicidade. 

Um dia após o outro

quinta-feira, 16 de março de 2017

Acordo. Antes do que gostaria, mas sem ajuda do despertador. Desde que ele nasceu, o meu corpo se acostumou a acordar sozinho. Olho para o lado, ele ainda dorme. É sempre bom acordar e vê-lo ali do meu lado. Nem reclamo quando ele me chama 5h da manhã, para pegá-lo na cama dele e levá-lo para a minha. "Mãe! Mamãe!". Dormimos juntos desde que ele tem seis meses. A desculpa primeiro era a amamentação. Mas foi ficando, ficando. Hoje ele só vai para lá de madrugada. Eu nem ligo - e adoro, devo confessar. Afinal, não vai ser um bebê para sempre.
Já estou cansada logo de manhã. No instagram as famosas já correram, já malharam com os Mahamudra no Ibirapuera, já fizeram dez refeições. Eu estou me esforçando para viver ainda. Puta canseira ser mãe. Essa é a verdade. Cansa, cansa pra caralho (desculpa mãe!). Mas somos ensinadas a não reclamar. "Não quis ser mãe? Agora aguenta". Meu filho, aguento com todo o prazer, mas que alguém poderia ter me avisado que nunca mais dormiria do mesmo jeito e que teria de aprender a viver para sempre cansada, com sentimento de culpa, com medo de falhar a qualquer atitude de birra ou má-criação. Claro que não desistiria de ser mãe, mas pelo menos estaria mais preparada.



Na maioria das vezes, eu não me acho uma boa mãe. Fico mais tempo no celular do que deveria. Talvez poderia insistir mais para ele comer, depois de eu ter passado uma hora cozinhando e ele dá apenas uma garfada e fala que não quer mais. Creio que boas mães teriam medo que o filho morresse de fome e criariam mil e uma estratégias para ele comer. Mas eu não. Eu insisto duas vezes, e se ainda assim não comer, eu mesma como. Já estou acostumada a comer restos do prato dele. Também não me acho uma boa mãe quando fico aliviada quando ele vai para o pai. "Meu Deus, sou horrível, fico contando as horas para o meu filho ir para a casa do pai. Que mãe sou eu?". 
No outro dia, dei pela primeira vez um tapa na mão dele, depois dele ter feito uma má-criação daquelas (nem lembro mais o quê). Ele chora, chora muito. E eu, claro, me sinto uma merda. E depois ele olha para mim e fala: "Mamãe, cupulpa". Ah, meus amigos, aí não há coração que aguente. Vontade de sair na rua e pedir para o primeiro estranho: "Moço, por favor, me dá um tapa na cara com toda a sua força, por favor?". 

Enfim, todas nós temos pelo menos um momento do nosso dia em que nos sentimos apenas “a pior mãe do mundo”. Em que precisamos daquele abraço, para nos dizer que vai ficar tudo bem. E sabem que mais? Geralmente tudo fica melhor após uma "boa" (coloco entre aspas porque a partir do momento em que você é mãe, dorme com um olho aberto e outro fechado) noite de sono. Amanhã começa tudo outra vez. É só torcer para, desta vez, ele pelo menos comer metade do que está no prato. 

Um café e um abraço

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ela não era uma pessoa das manhãs. A rotina dos últimos anos a levou a ter aversão de acordar cedo, ao ponto de lhe estragar o humor do resto do dia. Então, ao longo do tempo, ela achou em uma xícara de café (ou duas, três, quatro...) a solução para a ressaca moral, o alívio que precisa para encarar o dia. "Eu não funciono sem café", dizia. Ah, e como sabiam disso quem com ela convivia! Ela até dá aquele "bom dia" tímido de manhã, mas viver, viver de verdade, só depois do café preto. E nem adianta vir com a caneca de café com leite. É da cafeína pura que ela precisa. Ou ela não se responsabiliza pelos seus atos. Sério.

"Café é vida", ela costuma dizer. Talvez seja um pouco demais, mas ela via naquela bebida quente e forte (tem de estar tipo tinta, por favor...) uma forma de se autobrindar, uma chance de ter um dia mais disposto. Bem, dizem que o dinheiro não compra felicidade, mas compra pó de café, que é basicamente a mesma coisa.




Dividir com alguém o momento de beber café é que nem dividir senha do Netflix: não são necessárias palavras para demonstrar a força desse afeto. Ali está ela, disposta a partilhar aquele instante tão imprescindível na vida dela: sorte de quem ela escolhe para fazer isso.

Um café tem a força de um abraço: ele, por si só, demonstra que não há nada como um dia após o outro com uma noite pelo meio. Porque café que é café não tira sono, ele traz cura e inspiração. Ah!, se pudéssemos misturar o doce aroma de um café acabado de passar com a ternura de um abraço! Tantas lágrimas seriam poupadas, tantos sonhos ganhariam força para serem realizados, tantos problemas seriam desatados. 

Na falta do abraço certo, o café faz o resto.
 
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